Teima

Eu queria que você corresse, lembra? Corresse, corresse, corresse, corresse até que seus pulmões sangrassem, e você me disse que essa seria a coisa mais agonizante. Acho poético. Gastar a sola dos pés pra tentar chegar num abrigadouro onde, sejamos honestos, você nem quer estar. Você não perde essa mania de gostar do que não pode etiquetar com seu nome. Tem uma palavra pra isso, um adjetivo que faz cócegas.

Você jurou no pé da cruz que o tempo ia sentar na calçada pra te esperar. Que bobagem. O seu relógio de pulso, acurado, parecia ser tão fiel quanto um cão, e olha aí. Ele nem ligou, só continuou andando em círculos.

Às vezes eu penso se você não se arrepende de nada mesmo. Eu me arrependo algumas muitas vezes ao mês, mas e depois? Depois nada, não deu pra prever que aquele dia na beira do rio era um começo de coisa nenhuma. Signo de câncer, pele pálida, lembra? Eu não posso dizer que desejo pra ele felicidade, não desejo. Talvez eu deseje alguma coisa que eu chamaria de lucidez, como que acordar um dia distraída, já sem lembrança, e ouvir dele algum tipo de confissão guardada por muitas noites.

Você ainda pensa que eu não tenho idade pra romantismos, e está perto de estar certo, só que eu não aprendo, não aprendo, continua sendo mais difícil do que tocar no violão aquela música da Gal Costa que você canta enquanto passa café. Não esquece que a gente vai se abraçar semana que vem e tomar Coca-Cola com o copo apoiado no beiral. Até lá eu não decorei as cifras, mas matei o sentimentalismo.

 

 

 

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As meninas

Já faz um tempo que o 33 está vazio e que a nossa risada levou as trouxinhas para o 121. Sua casa foi a minha, ainda bem. Teve aquele dia em que eu chorei no tapete, enquanto você ria da minha bêbada desilusão, e aquele outro em que a gente gargalhou por horas ao som do autotune ou paralisadas pela voz da Clarice (“Eu não sou tão triste assim, é que hoje eu estou cansada”). As suas roupas foram as minhas, os seus sapatos, o seu lápis marrom. Coisas que eu sempre demorei pra devolver e você sempre me perdoou. Ainda bem. Eu te odiei algumas vezes, por menos de alguns minutos, porque faço drama — uma discussão é algo que me apaixona, mas você só consente com um olhar raso, raso, sob as sobrancelhas grossas. Eu amo a sua beleza e a sua liberdade, que me ensina a respirar com novo fôlego, a passear com leveza, a declarar com verdade. Que me livra de amarra, de preconceito, que não me impõe nada na vida. Eu amo os seus ouvidos sempre espertos, mais falantes do que a boca. Eu amo as suas meias palavras. Agora você vai sem mim, faz a mudança de novo, esvazia o 121. Só que, por favor, vê se volta com um livro bonito, com as palavras bonitas que você prefere escrever.

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Dois dias

A minha desordem me irrita e, de um jeito debochado, quase sempre me vence. Não conto com a ajuda de agenda e acho as chaves no último minuto. Anoto tudo mentalmente e deixo a ginástica pra trás. Quase sempre preguiça, cansaço, a semana foi cheia, exceto por uma rotina infalível que é: fecho a pálpebra devagar, como nos filmes, pra poder te ver melhor. Você aparece, mas primeiro surgem os dentes bem alinhados, que formam aquele sorriso que não sai do seu rosto, que roubam meu tempo, que roubam meu eixo, que me mandam pra um plano onde não há esse barulho de fim de festa. Eu sigo no corredor e paro no último quarto, penso em me esconder debaixo do lençol, só que mudo de ideia. Eu sempre mudo de ideia e é justamente esse o meu maior espanto nos últimos dias, já que pareço, agora, não querer mais outra coisa. Eu, que pensava ser aprendiz do efêmero, me encanto com o etéreo e me iludo com o eterno. Decido continuar sob o algodão leve até que você me descubra. Até que eu me revele nua, exposta, talvez constrangida, livre, mesmo estando presa em menos de dois confortáveis metros quadrados. O despertador cada dia me deixa mais ranzinza, acordo sem café, nem queijo e de pronto me esforço para organizar tudo na cabeça, “descontar o cheque, fazer a matrícula, comprar o gás”. Sigo recapitulando que hoje já é quinta-feira, 26, e que o sábado não ajuda e vem lento, engatinhando —  amoleço, esmoreço, já conto os dias pra encarar seus olhos e te nomeio regente do meu calendário. Acho graça, muita graça porque você, sem saber como, coloca ordem no meu tempo.

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Desestrutura

“A boca, (os poros) falam do que o peito transborda”, deixando esparramar pra todo lado. Olha lá, já molhou o piso da cozinha. Tudo manteve-se organizado, nem vontade de escrever apareceu. Tudo manteve-se rotineiro, como o metrô de minuto em minuto, espremendo e sufocando, mesmo vazio. Aí veio aquele confessionário de horas, sua calmaria, o timbre, e eu penso, até agora, se terá sido um dos milagres do álcool o diálogo. A gentileza da sua mão dançando na minha e os olhos — sempre eles — rasgando a minha carne até quando eu não consegui segurar o suspiro. O momento era feito de mim e você, e uma tonelada, compacta e densa, de vontade. Paciência. E aí a gente entende o pecado original, sente a graça do sal que há no que não se pode possuir. Sem contar com o beijo, eu voei. Veja se tem graça: depois de tanta estrepada, deixar um beijo de língua abalar meu aço. Voei, pousei e olhei pros rostos, pra garantir o nosso anonimato. Me engana que eu gosto. Colei minha vista na sua e falei tudo de boca fechada. Dormi em transe. No mais, conto com o futuro pra me reenviar os convites, vou ao mercado, compro panos de chão e voo no pensamento.

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Plataforma

Eu, perdida entre Mários e Marias. Entre galhos, retalhos e filosofias. Pisando em chão de terra, em chão de mato seco, pisando em chão de nuvem dentro da cabeça. Rodo, viajo pra cantos urbanos, pra vila todo dia, pra Penha ou vou pro Brejo. Rodo eu, rodo, giromundo e engraçado é que meu olho, quase sempre, desembarca bem em cima do seu.

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Você na Terra

– Na verdade eu tenho medo de que isso aconteça com a pessoa por quem eu me daria, todos os dois rins e minha alma a Deus e ao diabo.

Dançou no ar a figura que desenhou-se na imaginação de cada mulher ou homem presente, sobre um quem de tanta correnteza, que arrastaria minha alma até o fundo das águas, e que, também por essa circunstância, eu não faria questão de resgate algum.

***

– Quando você se tornar número negativo na Terra, penso que prefiro quebrar minha própria asa e ficar do lado de fora. Quem eu vou chamar para que me abra o portão serenamente, pedindo ao dono de sua crença para me abençoar?

É maltrato perder essa devoção. Repito.

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Faz calor

Há dois dias, Lia pediu que ele tomasse consciência de sua fraqueza (fraqueza dela). A ideia de vê-lo dominando-a, entrando nas suas noites sem discrição, deixando-a à deriva – porque existe, ao menos, uma pessoa deixada a esmo, ocupando a mesma história de um homem cujo o magnetismo arrasta tudo – fez sua imaginada inferioridade ceder lugar a uma casca, tão ridícula quanto inconsistente. Acabou recriando-o da maneira mais barata: vaidoso, raso, daqueles que não perdem a chance de virar comentário. Pode ser tudo verdade, e isso não fez com que seu olhar (olhar dele) fosse menos invasivo. Nenhum adjetivo desses malcriados foi capaz de protegê-la nos segundos em que foi encarada. Lia cegou.

Desfazer-se de um orgulho conquistado à base de muito solavanco não era opção, imagine ser coadjuvante na cena a qual ela detestava assistir: “seu” homem ao centro, disputado quase a tapa. O jogo deles foi uma luta de egos. Lia a última coisa que lembrou foi que ele ria, um riso no canto da boca, toda vez que ela refrescava sua testa com um sopro leve. Enquanto os fios dobravam, pensava na fábula de Rumpelstiltskin… Imagine… Palha que vira ouro. Cabelos que viram ouro. Era sono. O silêncio durou a madrugada, mas por quê, se tanto ela conta de si em todo lugar, a qualquer um? Nada foi falado, a não ser as indevidas ou devidas indecências. A intimidade física não dava liga com o que levava no peito e isso a encheu de preocupação; ninguém quer estar vulnerável, ela muito menos. Acordou, vestiu-se, saiu de fino, resolveu ser a personificação das coisas bem-resolvidas, separou tudo direitinho, como deve ser. Vacinada, né? Mulher vacinada.Um celular desses espertos, que não para silencioso, levou até Lia, justamente hoje, sua mensagem na garrafa, seu pergaminho clichê numa rede social: “quero teu cheiro”. O orgulho está na portaria do prédio, enquanto os dois tomam banho gelado.

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