Faz calor

Há dois dias, Lia pediu que ele tomasse consciência de sua fraqueza (fraqueza dela). A ideia de vê-lo dominando-a, entrando nas suas noites sem discrição, deixando-a à deriva – porque existe, ao menos, uma pessoa deixada a esmo, ocupando a mesma história de um homem cujo o magnetismo arrasta tudo – fez sua imaginada inferioridade ceder lugar a uma casca, tão ridícula quanto inconsistente. Acabou recriando-o da maneira mais barata: vaidoso, raso, daqueles que não perdem a chance de virar comentário. Pode ser tudo verdade, e isso não fez com que seu olhar (olhar dele) fosse menos invasivo. Nenhum adjetivo desses malcriados foi capaz de protegê-la nos segundos em que foi encarada. Lia cegou.

Desfazer-se de um orgulho conquistado à base de muito solavanco não era opção, imagine ser coadjuvante na cena a qual ela detestava assistir: “seu” homem ao centro, disputado quase a tapa. O jogo deles foi uma luta de egos. Lia a última coisa que lembrou foi que ele ria, um riso no canto da boca, toda vez que ela refrescava sua testa com um sopro leve. Enquanto os fios dobravam, pensava na fábula de Rumpelstiltskin… Imagine… Palha que vira ouro. Cabelos que viram ouro. Era sono. O silêncio durou a madrugada, mas por quê, se tanto ela conta de si em todo lugar, a qualquer um? Nada foi falado, a não ser as indevidas ou devidas indecências. A intimidade física não dava liga com o que levava no peito e isso a encheu de preocupação; ninguém quer estar vulnerável, ela muito menos. Acordou, vestiu-se, saiu de fino, resolveu ser a personificação das coisas bem-resolvidas, separou tudo direitinho, como deve ser. Vacinada, né? Mulher vacinada.Um celular desses espertos, que não para silencioso, levou até Lia, justamente hoje, sua mensagem na garrafa, seu pergaminho clichê numa rede social: “quero teu cheiro”. O orgulho está na portaria do prédio, enquanto os dois tomam banho gelado.

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Uma resposta para Faz calor

  1. consigo imaginar a felicidade de Lia ao receber esta mensagem. 🙂
    belo texto, tati.

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