As meninas

Já faz um tempo que o 33 está vazio e que a nossa risada levou as trouxinhas para o 121. Sua casa foi a minha, ainda bem. Teve aquele dia em que eu chorei no tapete, enquanto você ria da minha bêbada desilusão, e aquele outro em que a gente gargalhou por horas ao som do autotune ou paralisadas pela voz da Clarice (“Eu não sou tão triste assim, é que hoje eu estou cansada”). As suas roupas foram as minhas, os seus sapatos, o seu lápis marrom. Coisas que eu sempre demorei pra devolver e você sempre me perdoou. Ainda bem. Eu te odiei algumas vezes, por menos de alguns minutos, porque faço drama — uma discussão é algo que me apaixona, mas você só consente com um olhar raso, raso, sob as sobrancelhas grossas. Eu amo a sua beleza e a sua liberdade, que me ensina a respirar com novo fôlego, a passear com leveza, a declarar com verdade. Que me livra de amarra, de preconceito, que não me impõe nada na vida. Eu amo os seus ouvidos sempre espertos, mais falantes do que a boca. Eu amo as suas meias palavras. Agora você vai sem mim, faz a mudança de novo, esvazia o 121. Só que, por favor, vê se volta com um livro bonito, com as palavras bonitas que você prefere escrever.

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2 respostas para As meninas

  1. Sara Cardoso disse:

    Puro amor! Que delícia!!

  2. Pingback: preta, pretinha | dislexicamente

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